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O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, fez um pronunciamento neste sábado (23) onde declara a varíola dos macacos  (monkeypox)  como emergência de saúde global. A doença está espalhada hoje em mais de 70 países e há registros de mais de 16 mil casos, segundo declaração de Tedros Adhanom. Tedros acredita que, desta forma, será  possível controlar o surto e interromper a transmissão.

“Decidi declarar uma emergência de saúde pública de alcance internacional”, disse Tedros em entrevista coletiva.

Em outro trecho da coletiva, o diretor da OMS disse que o mundo necessita de coordenação e solidariedade para combater a doença.

Varíola dos macacos 

Antes, a doença estava mais restrita a áreas rurais da África central e continental. Ainda não há consenso sobre o motivo do contágio mais veloz – a transmissão sexual ainda é investigada pelos pesquisadores. A teoria mais difundida entre cientistas é de que isso ocorreu por causa de uma série de mutações no vírus, que depois encontrou na população HSH um primeiro nicho de disseminação.

Apesar do nome, a varíola dos macacos é mais comum em roedores e se restringia majoritariamente a caçadores africanos, onde é considerada endêmica.

— Ela foi descrita assim pela primeira vez porque teve um surto em macacos, que adoeceram assim como nós. Não foram eles que transmitiram a doença para nós — explica Ana Gorini da Veiga, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

— Ainda não sabemos por que esse surto está mais abrangente. Pode ser por uma maior transmissibilidade do vírus, porque hoje temos maior facilidade de transporte e locomoção de pessoas… — aponta Ana. Os primeiros registros dessa nova variante vieram da Espanha e da Bélgica, mas rapidamente os sintomas pipocaram em países como Portugal, Reino Unido e nas Américas.

Um dos principais empecilhos para dimensionar o alcance da monkeypox no Brasil e no mundo tem sido a variedade de manifestações da doença e a subnotificação. Com o período de incubação do vírus podendo variar de 5 a 21 dias, os primeiros sintomas geralmente incluem febre, dor de garganta, de cabeça e no corpo (que em alguns casos leva a uma primeira suspeita de infecção por algum vírus respiratório), além de inchaço dos gânglios. Alguns dias depois, surgem as lesões na pele, com pequenas erupções que podem se espalhar pelos dedos, mãos, braços, pescoço, costas, peito e pernas.

O surgimento dessas feridas nas regiões genital e perineal (entre o ânus e o órgão genital) tem contribuído para que médicos confundam a varíola dos macacos com outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), como sífilis e herpes. Pacientes ouvidos pela reportagem relatam que foram medicados com antibióticos e anti-inflamatórios, na primeira consulta após os primeiros sinais da doença. Com a persistência dos sintomas, a maioria deles só foi novamente testada após insistir em um novo diagnóstico ou se dirigir a outro hospital.

Transmissão sexual?

O fato de a varíola dos macacos causar erupções próximas ao genital e se disseminar tão rapidamente entre homens gays e bissexuais tem levantado a hipótese de que essa forma da doença possa ser sexualmente transmissível. Estudos preliminares na Itália e na Alemanha encontraram vestígios do vírus no sêmen de pacientes, mas os dados ainda são poucos para afirmar se a quantidade de carga viral seria suficiente para uma infecção.

— O fato é que temos uma doença transmitida de roedores para humanos e levada para a Europa, onde se disseminou de maneira muito intensa em encontros sexuais casuais, especialmente de homens. O vírus encontrou um nicho epidemiológico, que tem a possibilidade de transmissão adequada — explica Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, infectologista e pesquisador epidemiologista da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Por enquanto, médicos e cientistas dizem que é possível afirmar com mais segurança que a principal forma de transmissão da monkeypox é pelo contato direto com lesões ou saliva de pessoas infectadas, e não pela penetração sexual, por exemplo. Nesse sentido, o uso de máscara facial é importante, assim como a higiene constante das mãos e manter distância de quem esteja com sintomas, principalmente os visíveis.

— A transmissão não é pelo ato sexual, mas tem apresentado um comportamento que mimetiza essas características. Já temos casos, por exemplo, de alguém que teve a doença sexualmente e transmitiu para uma segunda pessoa do mesmo domicílio de outra forma — aponta Fortaleza. — Ao mesmo tempo, ignorar que ela tem se comportado como uma IST pode fazer com que a gente não dê as orientações necessárias para determinado grupo prioritário.

Sem erros do passado

Esse comportamento singular da monkeypox e sua associação ao ato sexual têm impulsionado queixas de parte da comunidade LGBT+, que encara os alertas específicos para “homens que se relacionam com homens” como uma forma de renovar o estigma criado há décadas sobre esse mesmo público desde o surgimento do HIV. Entre a comunidade médica e científica, essa mesma preocupação de reforçar estereótipos está “no cerne da questão”, como aponta o epidemiologista Fábio Mesquita.

— Não queremos cometer os mesmos erros do HIV. Na época, nossa ignorância era muito grande. Olhamos só para o número de casos como se fosse necessariamente associado a uma comunidade — observa ele, que já foi diretor do então Departamento de Doenças de Transmissão Sexual, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e hoje está baseado em Myanmar como membro do corpo técnico da OMS.

E qual seria a forma correta de alertar a população de risco sem cair na estigmatização ou até culpar a comunidade pelo espalhamento do vírus?

— É dizer que, nesse momento, a comunidade precisa ficar atenta, porque está disseminando de forma importante — aponta Mesquita. — Mas também precisamos frisar que não há evidência científica de que a monkeypox ficará restrita a ela (comunidade LGBT+).”

Quem concorda com essa visão é David Uip, infectologista e secretário de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do Estado de São Paulo. Ao Estadão, ele disse acreditar que “informação clara, correta e científica” é o melhor caminho para contornar o preconceito e criar a conscientização necessária tanto no grupo de risco como na população em geral, evitando o que categoriza como “a catástrofe do ponto de vista médico, epidemiológico e social” vista no enfrentamento do HIV.

— Você tem de se prevenir com o que temos de informações disponíveis, sem gerar pânico — aponta Uip, que esteve na linha de frente do combate ao HIV quando a doença explodiu no Brasil, em 1980, e foi inicialmente batizada de “peste gay”. — (A monkeypox) não é uma doença letal, pelo menos no momento, mas as pessoas estão muito sintomáticas e sofrendo demais.

Vacinas

Outro paralelo que Uip estabelece entre a monkeypox e o HIV é a falta de vacinas específicas e duradouras para essas doenças. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde a imunização contra a varíola dos macacos já começou, são usadas doses inicialmente desenvolvidas para a varíola humana (smallpox), distribuídas especificamente para a população HSH e com estoque bem aquém do necessário.

— Eu aproveitaria esse momento e encontraria mais informações sobre a monkeypox. Passaram-se 40 anos e ainda não encontramos a vacina para o HIV. O paciente tratado tem outra vida. O que resta, por enquanto, são medicamento e informação — diz.

Por ora, a aquisição de vacinas contra a varíola dos macacos não é uma realidade para o Brasil e nem para a maioria dos países em que a doença já foi encontrada. Questionado ao longo das últimas semanas, o Ministério da Saúde limitou-se a dizer que segue desde maio em tratativas com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a quem atribui a responsabilidade da distribuição de doses.

Perguntas e respostas

Quais os sintomas da varíola dos macacos?

Os sintomas são semelhantes, em menor escala, aos observados em pacientes antigos de varíola: febre, dor de cabeça, dores musculares e dorsais durante os primeiros cinco dias. Depois, aparecem erupções – no rosto, palmas das mãos e solas dos pés -, lesões, pústulas e finalmente crostas.

Como é transmitida?

A infecção nos casos iniciais se deve ao contato direto com sangue, fluidos corporais, lesões na pele ou membranas mucosas de animais infectados. A transmissão secundária, de pessoa para pessoa, pode ser resultado do contato próximo com secreções infectadas das vias respiratórias, lesões na pele de uma pessoa infectada ou objetos recentemente contaminados com fluidos biológicos ou materiais das lesões de um paciente.

Como se proteger e evitar o contágio?

Segundo a Anvisa,  o uso de máscaras, o distanciamento e a higienização das mãos são formas de evitar o contágio pela varíola dos macacos. A agência reforçou a adoção dessas medidas, frisando que elas também servem para proteger contra a covid-19.

“Tais medidas não farmacológicas, como o distanciamento físico sempre que possível, o uso de máscaras de proteção e a higienização frequente das mãos, têm o condão de proteger o indivíduo e a coletividade não apenas contra a covid-19, mas também contra outras doenças”, disse a agência.

Há vacinas contra a doença?

Não. No entanto, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o imunizante Jynneos se mostrou 85% eficaz na prevenção da varíola dos macacos. Ele não está disponível no Brasil. Não é possível, portanto, fazer a imunização aqui. Há estudos científicos em andamento no mundo para avaliar a viabilidade e adequação da vacinação para a prevenção e controle da varíola dos macacos, segundo a OMS.

Quais são as vacinas disponíveis hoje contra a varíola comum?

Por conta da erradicação da varíola em todo o mundo na década de 1980, as vacinas contra a doença pararam de ser produzidas em grande escala. No entanto, alguns países, como os Estados Unidos, mantêm quantidades pequenas dos imunizantes. As vacinas disponíveis hoje são as seguintes: a ACAM2000, da Sanofi Pasteur, e a Jynneos, também conhecida como imvamune ou imvanex, produzida pela Bavarian Nordic, considerada a mais segura e moderna pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos EUA.

Tenho marca da vacina no braço, então estou protegido?

O imunizante aplicado nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil, em uma campanha nacional que resultou na erradicação da varíola, poderia causar reação no braço e deixar uma cicatriz. Essa marca, no entanto, não é exclusiva desse imunizante: a vacina BCG, usada no controle da tuberculose, também pode deixar marca na pele. Assim, mesmo um profissional de saúde teria problemas para diferenciar as duas e ter certeza da vacinação do indivíduo. Desse modo, especialistas não consideram prudente relacionar a marca do braço à vacinação contra a varíola.

Tenho certeza de ter tomado a vacina da varíola comum. Estou protegido contra a varíola dos macacos?

Esse é um ponto de incerteza no assunto. Alguns especialistas acreditam que sim, mesmo quem foi imunizado antes de 1980 – quando a vacina ainda era aplicada no Brasil – pode ter anticorpos.

— Não temos certeza se o nível de proteção ainda é o adequado do ponto de vista clínico. Alguma proteção pode ter ficado, mas, como (as pessoas vacinadas) não tiveram contato com o vírus, a tendência é de que essa proteção tenha reduzido ao longo do tempo  —  explica Fernando Spilki, virologista e professor da Universidade Feevale.

Quem deve ser vacinado hoje em países que enfrentam surtos?

Alguns países já sinalizaram investimentos em vacinas contra a varíola. Além dos Estados Unidos, o Reino Unido disponibiliza as duas vacinas para profissionais de saúde e pessoas que viajam para países da África, onde a doença é endêmica. A Alemanha anunciou, na semana passada, ter encomendado 40 mil doses da Jynneos e a França também recomendou a vacinação de trabalhadores da saúde que tiveram contato com infectados. No Brasil, não há posicionamento das autoridades.

O Brasil tem vacina contra a varíola comum para toda a população?

Nem o Brasil nem outros países têm imunizantes para controlar a varíola para toda a população neste momento. Uma campanha nacional, como a que ocorre contra a covid-19 e a gripe, seria feita em um cenário distante do esperado por especialistas, que acham improvável uma disseminação tão ampla que justifique tamanha mobilização. Esse é também o posicionamento da OMS sobre o assunto.

Posso comprar a vacina da varíola?

Não. A reportagem de GZH entrou em contato com duas clínicas particulares de vacinas de Porto Alegre na manhã desta quarta-feira e ambas relataram pedidos pelo imunizante, que não é vendido no Brasil. Outra dúvida relatada pelos estabelecimentos é quanto à confusão dos nomes das doenças: clientes têm pedido a vacina contra a varicela (catapora) como se fosse o imunizante contra a varíola.

Há algum medicamento contra a varíola?

Sim. Um agente antiviral conhecido como Tecovirimat foi autorizado em janeiro deste ano pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) para tratar a varíola comum, a varíola dos macacos e a varíola bovina, três infecções causadas por vírus pertencentes à mesma família (ortopoxvírus). O Tecovirimat é utilizado em adultos e crianças com peso mínimo de 13 quilos. No entanto, esse medicamento ainda não está disponível ao público.

Qual a situação da vacina no Brasil?

Em nota à reportagem, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que não há medicamento nem vacina registrados e autorizados na agência com a indicação para tratamento ou prevenção da varíola dos macacos ou varíola comum no momento. Além disso, a Anvisa disse não ter recebido solicitação de laboratórios farmacêuticos para o registro de vacinas ou medicamentos para nenhum das doenças. “As vacinas contra a varíola não estão mais disponíveis no mercado para a população geral e como os casos da monkeypox são raros, a vacinação universal não é indicada”, informou a Anvisa.

Quais os protocolos de prevenção do Brasil neste momento?

Não há orientação específica para protocolo de abordagem a viajantes que entram no Brasil, que, é bom destacar, não enfrenta surto da doença. De acordo com a Anvisa, esse procedimento deve ser definido a partir de orientação do Ministério da Saúde e OMS, o que não há no momento. O único movimento do MS sobre o assunto é a criação de uma Sala de Situação para monitorar casos da varíola dos macacos no Brasil. “A medida tem como objetivo elaborar um plano de ação para o rastreamento de casos suspeitos e na definição do diagnóstico clínico e laboratorial para a doença”, informou a pasta.

PUBLICADO POR: David Richard

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