Estreia de ‘Dessana, Dessana’ em formato de ópera marca FAO 2018

Redação
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Clássico amazônico, “Dessana, Dessana”, já revisitado inúmeras vezes em musicais e concertos, estreou no último domingo (29/04) em forma de ópera, no palco do Teatro Amazonas, durante o 21º Festival Amazonas de Ópera (FAO). A montagem, que conta a história da criação do universo de acordo com a visão indígena, começa com o narrador invocando o mito do começo do mundo em pleno caos urbano de Manaus.

Obra será reapresentada nos dias 3 e 5 de maio, às 20h, no Teatro Amazonas

O FAO 2018 é uma realização do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura (SEC), com patrocínio do Bradesco Prime – que celebra 10 anos de parceria com o festival –, incentivo do Ministério da Cultura (Minc) por meio da Lei Rouanet; além do apoio da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC) e da Aliança Francesa.

O tenor Enrique Bravo, que interpreta Dessana, o narrador do mito, falou da responsabilidade de fazer o clássico.

“Em forma de ópera ela é muito mais difícil e, por ser uma obra tão tradicional, muito esperada pela classe artística, foi um desafio e um privilégio”, disse. “Dessana vem como um ativista que tem contato com a cultura indígena e que foi fortemente impactado com isso. Para compor, pensei na emoção após aquele dia em que o índio foi assassinado no ponto de ônibus em Brasília, e criei um Dessana que está revoltado e precisa contar essa história que engloba a criação do mundo”.

A reprodução da cosmogonia dos povos do Rio Negro, com Yebá-Beló, a avó do mundo, vivida por quatro atrizes, sobre um clarão de quartzo contando como criou o mundo; a travessia dos homens e mulheres inicialmente criados pelo lago de leite; a presença do homem branco, que logo é banido por Boleka e Sulãn-Panlãmin, líderes do povo recém-criado; assim como a apresentação das festas e dos rituais, toda a representação mítica foi feita com total sincronia entre a Orquestra Experimental da Amazonas Filarmônica, o Coral do Amazonas e o Balé Folclórico do Amazonas.

A versão agradou os criadores da obra. Da plateia, Adelson Santos, compositor da música de “Dessana, Dessana”, disse que a obra alcançou uma nova dimensão.

“Estou muito feliz. Os cantores, a orquestra e os bailarinos deram outra configuração à obra, de repente alcançou uma nova dimensão. Foi um passo adiante que nós demos”, comentou. “Só peço que não deixem ‘Dessana’ ficar esquecida, porque é uma obra bonita, com muito conteúdo e informação, que merece ser exposta sempre”.

Aldísio Filgueiras, autor do libreto em parceria com Márcio Souza, disse que renasceu.

“A impressão que eu tenho é a mesma de quando eu acordo e descubro que estou vivo. É um alívio! Me sinto assim porque lá na década de 1970, quando esse espetáculo estreou, 80% dessa plateia não tinha nascido e, principalmente, ainda não tinha sido criada essa orquestra que acompanha esses jovens artistas, atores e bailarinos. Parece que estou participando da criação do mundo também, junto com os Dessana. Essa é a impressão que, como dizemos no nosso texto, estamos sempre a recriar o mundo”, afirmou.

Regente da ópera, o maestro Otávio Simões destacou a importância de ter o compositor na plateia e a atuação dos solistas.

“O público recebeu muito bem a obra e ter o compositor na plateia, emocionado, foi muito gratificante. Nem sempre temos essa oportunidade. O sentimento é de dever cumprido”, afirmou. “A atuação de todos os artistas, da orquestra, do coro, do balé, foi excelente como sempre, mas destaco, sobretudo, atuação dos solistas do Coral do Amazonas. Ver esses cantores fazendo solos com tão alto nível de qualidade dá muito orgulho”.

Balé

Outro destaque de “Dessana, Dessana” foi a participação do Balé Folclórico do Amazonas. De acordo com a coreógrafa Monique Andrade, o Corpo Artístico criou uma nova partitura para compor a ópera.

“Construir um corpo que nasce do pó da terra, passando por todas as etapas até se transformar num ser humano, foi uma composição muito colaborativa com os bailarinos, porque eles têm a dança folclórica no corpo”, observou. “Mas a dança dentro da ópera tem outro tipo de composição, tem uma forma dentro do contexto, existe uma interação grande do balé com os solistas e com o coro, então a composição é um conjunto. Ajustamos o tempo e o espaço para criar uma nova partitura corporal junto com a partitura musical”, pontuou.

Plateia

A montagem encantou o público. A economista Cleonice Mororó, de Brasília, está visitando Manaus e aproveitou para conhecer o FAO. “É a minha primeira vez na ópera e aqui na Amazônia. Gostei muito, foi muito bonito. O profissionalismo, a sincronia da orquestra com os atores e a história por trás da apresentação”, disse. “Vim com essa vontade de assistir a uma ópera porque já tinha ouvido falar, mas nunca tive a oportunidade de assistir”, comentou.

Já Ana Caroline Souza disse que todos os anos prestigia o FAO e destacou suas impressões. “Sempre venho para o Festival. Achei muito linda a ópera, eu adorei o coral, o balé. Também percebi que eles tiveram um cuidado sustentável na montagem”, afirmou. “Pretendo voltar para assistir ‘Faust’”.

“Dessana, Dessana”

A ópera traz ao público a mitologia indígena narrada por meio da personagem Yeba-Beló, “a avó do mundo, a mais velha que o nada”. Além do conflito vivido pela personagem Dessana em pleno caos urbano de Manaus, a obra também apresenta as festas, rituais e trabalhos desenvolvidos pelo povo da etnia. A direção musical e a regência da obra são do maestro Otávio Simões.

 

Ficha técnica:

Dessana, narrador do mito – Enrique Bravo, tenor

Yebá-Beló 1 – Tamar Marcelice, soprano

Yebá-Beló 2 – Carol Martins, soprano

Yebá-Beló 3 – Marinete Negrão, mezzo-soprano

Yebá-Beló 4 – Kelly Fernandes, mezzo-soprano

Trovão da Casa-do-Rio – Fabiano Cardoso, tenor

Trovão da Casa-do-Sul – Emanuel Conde, baixo

Trovão da Casa-da-Noite – Miqueias William, tenor

Trovão de Wapuí-Cachoeira – Joubert Junior, barítono

Sulãn-Panlãmin – Juremir Vieira, tenor

Trovão Avô-do-Céu – Moisés Rodrigues, barítono

O Homem Branco – Alberto Corrêa, tenor

A Filha do Trovão – Kátia Freitas, soprano

Boleka – Everaldo Barbosa, tenor

Direção Musical e regência: Otávio Simões

Direção Cênica: Matheus Sabbá

Cenografia: Raiz

Figurinos: Adroaldo Pereira

Desenho De Luz: Fábio Retti

Coreografia: Monique Andrade

Corpos artísticos: Balé Folclórico Do Amazonas, Coral Do Amazonas e Orquestra Experimental da Amazonas Filarmônica.

 

Festival Amazonas de Ópera – Este ano, além de “Faust” e “Dessana Dessana”, que estrearam neste fim de semana, o FAO apresentará as óperas “Florencia en el Amazonas”, “Acis and Galatea” e a estreia mundial “Kawah Ijen (Vulcão azul)”. Os ingressos estão disponíveis na bilheteria do Teatro Amazonas e no site www.aloingressos.com.br, com valores que vão de R$ 5 a R$ 60.

Sobre o Bradesco Cultura – Com mais de 350 projetos patrocinados anualmente, o Bradesco demonstra que acredita que a cultura é um agente transformador da sociedade. O Banco apoia iniciativas que contribuem para a sustentabilidade de manifestações culturais que acontecem de norte a sul do País, reforçando o seu compromisso com a democratização da arte. Com apoio a eventos regionais, museus, feiras, exposições, centros culturais, orquestras, musicais e muitos outros. A instituição tem, ainda, uma plataforma de naming rights com o Teatro Bradesco, que conta com unidades em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Em 2018, já passaram pela Temporada Cultural do Bradesco as exposições Julio Le Parc, Mira Schendel e Hilma af Klint, o espetáculo Bibi Ferreira e o Lollapalooza Brasil. Estão em cartaz os musicais Peter Pan e Ayrton Senna, além de diversas atrações confirmadas ao longo do ano, como os festivais de Parintins, Tiradentes, a festa junina de São João do Caruaru, o São João de Campina Grande, ArtRio, MIMO e MADE, entre outras.

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